A 4 de Julho de 1942, Carlos Ferreira Soares foi assassinado. Amanhã, 67 anos após a sua morte, o médico dos pobres vai ser homenageado pela Junta de Freguesia de Nogueira da Regedoura, que inaugurará um monumento dedicado à sua pessoa. Armando Sousa e Silva apresentará um livro sobre a vida do Dr. Prata. Ambas as iniciativas contarão com a presença de Almeida Santos.
Amanhã, no dia em que se comemoram os 67 anos da morte de Carlos Ferreira Soares, Nogueira da Regedoura vai prestar uma homenagem pública ao homem que ficou conhecido como o médico dos pobres e que foi assassinado pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) na sua própria casa por ser um militante comunista e anti-facista. No entanto, o reconhecimento feito ao nogueirense que morreu no dia 4 de Julho de 1942 não se prende com os seus feitos partidários, mas sim por tudo que ele fez pelo desenvolvimento da vila que não o viu nascer, mas onde cresceu.
Além de ser recordado pelo médico que dava medicamentos à população pagos do seu próprio bolso, atitude que lhe granjeou a alcunha “médico dos pobres”, Ferreira Soares foi também um cidadão que lutou para melhorar as condições culturais dos seus conterrâneos, fundando, por exemplo, o Relâmpago Nogueirense ou o Ateneu Cultural e Social, onde muitos aprenderam a ler a escrever.
Foi essa dedicação a Nogueira da Regedoura que levou a Junta de Freguesia a fazer-lhe uma homenagem pública. Tal como explicou ao jornal Feira Norte o autarca Henrique Ferreira, até aqui o executivo tinha já colocado o nome Dr. Carlos Ferreira Soares a uma avenida e a uma praceta. No entanto, a sua história de vida levou a autarquia nogueirense a ir mais longe e a construir um monumento dedicado ao médico dos pobres, também conhecido por Dr. Prata.
Depois de ter tomado a decisão, a Junta de Freguesia lançou um concurso de ideia para a concepção do projecto e Jorge Oliveira ficou responsável de elaborar a infra-estrutura final. Da localização originalmente pensada, em frente ao cemitério, no início da Rua da Portela, o monumento passou, devido às dificuldades que geraria em termos de trânsito, para a Rua das Flores, mesmo ao lado da sede da autarquia. Além de ficar situado na rua onde Ferreira Soares viveu, o chefe do executivo explicou que os terrenos onde está situado o monumento pertenceram à quinta do pai do médico e, por isso, o local era perfeito devido “ao valor simbólico”.
Monumento inaugurado
A inauguração do monumento, marcada para as 11h30, será um dos momentos mais importantes do dia que a freguesia dedica a Ferreira Soares. O programa oficial começa às 11h00 com a concentração na entrada poente do arraial da vila, onde os presentes receberão o antigo presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos.
Do arraial, a comitiva seguirá para o cemitério, onde Almeida Santos e José Mota, presidente da Câmara Municipal de Espinho, depositarão uma coroa de flores na campa de flores do médico. No local, Armando Sousa e Silva explicará o significado da japoneira, árvore sob a qual Carlos Ferreira Soares foi enterrado, e será lido um poema da autoria de Manuel Alegre. A pé, os presentes vão deslocar-se até a casa onde o médico foi assassinado, na Rua das Flores.
Depois, decorrerá a inauguração do monumento, constituído por sete paralelepípedos em pedra granítica de diferentes tamanhos, sendo que a mais pequena tem gravada a data de 1936 e a maior 1942. Segundo Henrique Ferreira, a escolha do granito representa “a frieza, o monolitismo e o pensamento único do regime de Salazar”. Já as datas significam “os anos que foi perseguido e a intensidade gradual da perseguição”. No cimo das pedras, ficarão 11 barões de aço, completados por mais três que ficarão junto ao busto do médico dos pobres e que representam, no total, “os 14 tiros que ele levou”. No centro dos sete paralelepípedos que formam um semi-círculo, estará uma japoneira. O seu busto terá uma gravação de um poema da autoria de Nunes Clares, no qual o médico se revia. A inauguração estará a cargo de Almeida Santos e de Alfredo Henriques, presidente da Câmara Municipal da Feira. O monumento terá um custo de 70 mil euros, dos quais 30 mil serão suportados pela autarquia feirense.
Seguir-se-á uma sessão solene na Junta de Freguesia, para a qual está reservado outro dos momentos importantes da manhã, a apresentação do livro de Armando Sousa e Silva, intitulado “Vítimas de Salazar. Carlos Ferreira Soares. Anatomia de um Crime”.
Livro prefaciado por Mário Soares
Há uns anos, aquando da realização da monografia sobre Nogueira da Regedoura que escreveu em conjunto com o seu pai, Armando Sousa e Silva dedicou um capítulo da obra a Carlos Ferreira Soares, já que esse assunto era “incontornável”. “Ele está umbilicalmente ligado a Nogueira, embora não tenha nascido cá. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, ele não deu só remédios pagos do seu bolso aos pobres. Ferreira Soares foi etnógrafo, poeta, escritor, humanista, fundou o Ateneu Recreativo e Social que ajudou muita gente a saber ler e escrever... Fez quase tudo o que havia a fazer na terra naquele tempo”, explicou ao Feira Norte.
Depois da monografia, o nogueirense ficou com curiosidade e começou a investigar o médico. A primeira parte da investigação passou por reunir e estudar documentos dele ou sobre ele. “Fiz uma colecção de 353 documentos sobre Carlos Ferreira Soares, que incluem manuscritos, cartas dele e da família e para ao bispo do Porto, relatórios de autópsia, acórdãos de tribunal, jornais da época”. Aliás, desse conjunto, revelou, 67 foram incluídos no livro por terem interesse histórico. Depois, o professor dedicou-se a ouvir as pessoas que viveram na altura e conviveram com o médico, até porque essa “é a melhor garantia de estarmos a falar com uma testemunha credível”.
Já numa certa fase da investigação, o presidente da Junta de Freguesia teve conhecimento de que Armando Sousa e Silva estava a reunir essas informações e, pensando já na homenagem que vai decorrer amanhã, convidou-o para escrever um livro sobre o médico dos pobres. O convite foi aceite e o nogueirense começou a trabalhar na obra, que é constituída por duas partes: uma com os documentos e testemunhos recolhidos e outra com o resumo do último dia de vida de Ferreira Soares. Segundo o autor, “a única parte onde pode haver ficção é ai, já que tentei que, na última manhã do médico, houvesse um flash memorial de tudo o que foi a vida dele e do que eu sabia dele”.
Entretanto e depois do livro pronto, Armando Sousa e Silva conseguiu que a obra tivesse o prefácio de Mário Soares. “Um dia, fui a Lisboa e desloquei-me à Fundação Mário Soares, ele estava lá, viu o livro debaixo do meu braço, perguntou se podia ler, gostou e prefaciou-o”, recordou. E acrescentou: “nunca contaria com algo assim destas. O prefácio é singelo, objectivo, curto, mas com um grande significado para mim”.
Romagem ao cemitério
Entretanto, também o Partido Comunista Português vai fazer uma romagem à campa de Carlos Ferreira Soares, que está sepultado no cemitério de Nogueira da Regedoura. Amanhã, pelas 16h00, o PCP faz uma homenagem ao médico do povo, lutador antifascista e militante comunista, assassinado em 1942. A iniciativa terá a participação de Margarida Tengarrinha.
Lília Marques